Quem é o dono da Antártica? Quem manda naquele continente enorme, congelado e cheio de riquezas naturais? E por que tantos países estão interessados no que acontece por lá?
A resposta parece simples, mas envolve exploração, caça, disputas territoriais, ciência e um dos acordos internacionais mais importantes da história.
Hoje vamos viajar pelo descobrimento da Antártica e entender a geopolítica do continente. Em outras palavras, vamos descobrir quem manda naquela “bagaça”.
Quando a Antártica era considerada uma terra sem valor
Entre 1772 e 1775, o navegador britânico James Cook realizou uma grande expedição pelos mares do sul. Ele procurava a famosa Terra Austral, um continente que filósofos e estudiosos acreditavam existir naquela região do planeta.
Cook atravessou o Círculo Polar Antártico, navegou entre gelo, névoa e condições terríveis, mas não conseguiu avistar o continente.
Ao voltar para a Inglaterra, afirmou que, caso existissem terras mais ao sul, elas provavelmente seriam frias, estéreis e sem valor.
Que tolinho. Mal sabia ele.
A descoberta que atraiu caçadores
Em fevereiro de 1819, uma tempestade desviou o navio do capitão britânico William Smith de sua rota. Durante a viagem, ele avistou as Ilhas Shetland do Sul, localizadas próximas à Península Antártica.
Era terra à vista.
Quando Smith voltou e contou o que tinha encontrado, muita gente não acreditou. Ele retornou à região alguns meses depois e confirmou a descoberta.
Mas havia um detalhe que chamou bastante atenção: aquelas ilhas estavam cheias de focas.
A notícia atraiu caçadores interessados principalmente na pele e na gordura desses animais. O óleo obtido das focas e das baleias era utilizado em lamparinas, máquinas e diferentes produtos.
O resultado foi uma exploração brutal.
Milhares de focas e baleias foram mortas no Oceano Austral. Em alguns locais da Antártica, ainda é possível encontrar ossos, ruínas de instalações e objetos deixados por antigos caçadores.
São marcas de uma época em que os animais eram vistos apenas como recursos disponíveis para exploração.
Começa a disputa pela Antártica
Depois das primeiras descobertas, novas expedições começaram a explorar e mapear o continente.
Cientistas estudaram o clima, o gelo, os animais, os oceanos e a geologia da região. Ao mesmo tempo, diferentes países perceberam que a Antártica poderia possuir recursos minerais e uma enorme importância estratégica.
Começou então uma verdadeira corrida pelo continente.
Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido apresentaram reivindicações territoriais sobre partes da Antártica. Algumas dessas áreas, inclusive, se sobrepõem.
Era quase uma briga de condomínio, mas com países, bandeiras e milhões de quilômetros quadrados de gelo.
Como surgiu o Tratado Antártico?
Durante a Guerra Fria, o mundo estava dividido principalmente entre os Estados Unidos e a União Soviética. Existia o medo de que a Antártica também se transformasse em território de conflito militar.
Ao mesmo tempo, cientistas de vários países trabalhavam juntos no continente durante o Ano Geofísico Internacional, realizado entre 1957 e 1958.
Essa cooperação científica ajudou a mostrar que a Antártica poderia seguir outro caminho.
Em 1º de dezembro de 1959, doze países assinaram o Tratado Antártico:
- Argentina
- Austrália
- Bélgica
- Chile
- Estados Unidos
- França
- Japão
- Nova Zelândia
- Noruega
- Polônia
- Reino Unido
- União Soviética
O acordo entrou oficialmente em vigor em 23 de junho de 1961.
E cadê o Brasil nessa lista?
O Brasil aderiu ao Tratado Antártico em 1975 e passou a integrar o grupo de países com poder de decisão em 1983, depois de iniciar suas atividades científicas no continente.
O que determina o Tratado Antártico?
O Tratado Antártico estabelece que o continente deve ser utilizado exclusivamente para fins pacíficos.
Atividades militares, testes de armas e explosões nucleares são proibidos. Militares, navios e equipamentos podem ser utilizados apenas para apoiar pesquisas científicas e outras atividades pacíficas.
O acordo também garante a liberdade de pesquisa e incentiva a cooperação internacional e o compartilhamento de informações científicas.
Outro ponto fundamental é que as reivindicações territoriais ficaram congeladas.
Isso significa que os países que já reivindicavam partes do continente não precisaram abandonar suas posições. Porém, nenhuma nova reivindicação pode ser apresentada, e as existentes não podem ser ampliadas enquanto o Tratado estiver em vigor.
Afinal, a Antártica tem dono?
Não existe uma resposta tão simples.
Sete países mantêm reivindicações territoriais sobre partes da Antártica, mas essas reivindicações não são reconhecidas. O Tratado Antártico preserva as diferentes posições e impede que a disputa avance.
Na prática, nenhum país pode chegar lá, fincar uma bandeira e dizer:
“Pronto, agora isso tudo é meu.”
As decisões sobre o continente são discutidas pelos países que fazem parte do Sistema do Tratado Antártico.
Atualmente, 58 países participam do Tratado, mas somente 29 são Partes Consultivas. São esses países que possuem direito de participar das decisões.
Para conquistar esse direito, o país precisa demonstrar interesse concreto pela Antártica, principalmente por meio da realização de pesquisas científicas importantes na região.
Brasil, Coreia do Sul e Espanha (os países por onde passei durante minha formação) estão entre os membros consultivos.
E as riquezas minerais da Antártica?
A existência de possíveis recursos minerais sempre despertou interesse internacional. Mas a exploração mineral comercial é proibida pelo Protocolo de Madri, acordo ambiental ligado ao Tratado Antártico.
Somente pesquisas científicas são permitidas.
O Protocolo também define a Antártica como uma reserva natural dedicada à paz e à ciência.
E não, essa proteção não “vence” automaticamente em 2048. A partir daquele ano, poderá ser solicitada uma conferência para revisar o funcionamento do Protocolo, mas isso não significa que a mineração será liberada.
Quem pesquisa também precisa cuidar
A Antártica não é uma terra sem regras.
Os países que realizam pesquisas, mantêm estações científicas e participam das decisões também possuem a responsabilidade de proteger o continente e o Oceano Austral.
O Tratado Antártico mostrou que países com interesses diferentes conseguem cooperar para manter uma região inteira destinada à paz e à ciência.
Então, quem manda na Antártica?
Nenhum país manda sozinho.
E justamente por isso, todos os países envolvidos precisam ajudar a cuidar daquele ambiente.
Continue curioso e acompanhe o Gelo na Bagagem para descobrir mais histórias sobre o continente gelado.
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