Quando pensamos em um congresso sobre a Antártica, é fácil imaginar uma reunião cheia de cientistas falando apenas sobre gelo, pinguins e temperaturas negativas. Mas o SCAR Open Science Conference 2026 mostrou que discutir a Antártica é, na verdade, discutir o futuro do planeta.
Realizado em Oslo, na Noruega, o evento reuniu cerca de 1.400 participantes de aproximadamente 50 países. Foram pesquisadores, estudantes, profissionais responsáveis pela logística antártica, representantes de organizações internacionais e pessoas envolvidas com políticas públicas, educação e comunicação científica.
O SCAR é o Comitê Científico de Pesquisa Antártica, uma das principais organizações internacionais responsáveis por promover e coordenar a ciência realizada no continente. Sua conferência científica acontece a cada dois anos e é considerada o principal encontro mundial dedicado à pesquisa antártica e ao Oceano Austral.
Participo das reuniões e congressos do SCAR desde 2012. Em 2016, recebi o prêmio de melhor pôster de todo o congresso. Em 2026, fui ao evento para apresentar minha pesquisa sobre a ecologia trófica de gorgônias antárticas, participar de um painel sobre mulheres na ciência polar e acompanhar discussões que devem orientar os próximos anos da ciência na Antártica.
E posso dizer: o clima de preocupação estava presente em praticamente todas as salas.
O gelo da Antártica e o nível do mar
Um dos assuntos centrais foi a velocidade das mudanças que estão acontecendo no continente. Os cientistas apresentaram estudos sobre geleiras, plataformas de gelo, circulação oceânica, temperatura, precipitação de neve e possíveis impactos do derretimento antártico sobre o nível do mar.
Uma plataforma de gelo é uma extensão de gelo continental que avança sobre o oceano. Quando ela se torna mais fina ou se rompe, deixa de funcionar como uma espécie de barreira natural que ajuda a conter o gelo localizado em terra.
Esse processo pode acelerar o deslocamento das geleiras em direção ao mar. E é o gelo que está sobre o continente, quando chega ao oceano, que contribui diretamente para a elevação do nível do mar.
Por isso, o que acontece na Antártica não fica restrito ao extremo sul. Pode afetar cidades costeiras, portos, comunidades e atividades econômicas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
A ciência já sabe que o gelo está mudando. O grande desafio agora é compreender a velocidade dessas mudanças e melhorar as projeções para as próximas décadas.
O Oceano Austral está mudando
O oceano que circunda a Antártica também ocupou boa parte das discussões. O Oceano Austral absorve uma parcela importante do calor e do dióxido de carbono acumulados no sistema climático. Isso ajuda a diminuir temporariamente alguns efeitos do aquecimento global, mas tem consequências.
Mudanças na temperatura, na salinidade, na circulação das águas e na formação de gelo marinho podem alterar toda a dinâmica dos ecossistemas antárticos.
O gelo marinho, por exemplo, é importante para diversos organismos. Microalgas vivem associadas a ele, o krill antártico depende dessas algas em fases importantes de sua vida e muitos animais dependem do krill para se alimentar.
Quando falamos em mudanças no gelo marinho, portanto, não estamos falando apenas de uma paisagem branca desaparecendo. Estamos falando de alterações que podem percorrer toda a cadeia alimentar.
Biodiversidade: precisamos conhecer para proteger
O congresso sobre a Antártica também apresentou muitos trabalhos sobre biodiversidade marinha. Foram discutidos pinguins, baleias, focas, aves, plâncton e os organismos que vivem no fundo do mar — o chamado bentos.
Esse é o ambiente no qual concentro grande parte das minhas pesquisas.
Em Oslo, apresentei um estudo sobre a ecologia trófica de gorgônias antárticas. As gorgônias são animais parentes dos corais que vivem fixados no fundo marinho. A partir de análises bioquímicas, investigamos como esses organismos obtêm energia e quais fontes alimentares sustentam sua sobrevivência.
Pode parecer um tema extremamente específico, mas compreender quem se alimenta de quem e como a energia circula pelo ecossistema é fundamental para identificar futuras mudanças ambientais.
Também acompanhei debates sobre monitoramento do fundo do mar, padronização de dados e uso de imagens e novas tecnologias. A Antártica é enorme, remota e difícil de estudar. Nenhum país consegue monitorá-la sozinho. Precisamos compartilhar métodos, infraestrutura, imagens e informações.
Plásticos, turismo e presença humana
A poluição por plásticos também apareceu nas apresentações. Mesmo distante das grandes cidades, a Antártica não está isolada do restante do mundo. Microplásticos já foram encontrados na água, no gelo, nos sedimentos, no ar e em organismos antárticos.
Parte dessa poluição pode chegar transportada pelas correntes oceânicas e pela atmosfera. Outra parte está relacionada às próprias atividades humanas realizadas na região.
O crescimento do turismo antártico foi outro tema importante. A visitação pode aproximar as pessoas do continente e ajudar a ampliar o interesse por sua conservação. Entretanto, o aumento do número de visitantes também exige regras, fiscalização, planejamento e monitoramento dos impactos.
Na minha opinião, a questão não é simplesmente permitir ou proibir o turismo. É definir limites fundamentados em evidências científicas antes que os impactos se tornem difíceis de reverter.
Mulheres e segurança no trabalho de campo
A presença e as condições de trabalho das mulheres na ciência polar também ganharam espaço no SCAR 2026.
Participei do painel “Women in Polar Science”, no qual conversamos sobre trajetórias profissionais, desafios, conquistas e mudanças necessárias para ampliar a participação feminina na ciência antártica.
Hoje existem mais mulheres trabalhando nas regiões polares, mas presença numérica não significa igualdade. Ainda há diferenças no acesso à liderança, ao financiamento, às expedições e às decisões científicas.
O congresso também promoveu discussões sobre segurança física e interpessoal durante os trabalhos de campo. Na Antártica, as equipes permanecem isoladas por semanas ou meses, longe de suas famílias e das estruturas convencionais de apoio. Por isso, prevenir assédio, preparar lideranças e estabelecer protocolos claros também faz parte da segurança de uma expedição.
O próximo Ano Polar Internacional
Outro assunto que atravessou diversas reuniões foi a preparação para o quinto Ano Polar Internacional, previsto para 2032 e 2033.
Um Ano Polar Internacional é um grande esforço de cooperação científica. Durante esse período, países e instituições coordenam pesquisas, compartilham estruturas e concentram investimentos para responder a perguntas que dificilmente seriam enfrentadas por projetos isolados.
Embora pareça distante, a preparação já começou. São necessários vários anos para definir prioridades, construir parcerias, buscar financiamento, organizar navios, estações, equipamentos, equipes e bancos de dados.
E o financiamento será um dos maiores desafios. Muitos países podem contribuir com logística, mas poucos apresentam recursos financeiros disponíveis. Isso deverá aumentar a procura por fundos internacionais, fundações e empresas privadas interessadas em apoiar pesquisas sobre clima e mudanças ambientais.
O Brasil precisa participar dessas discussões desde agora. Temos uma comunidade científica antártica experiente e uma posição estratégica por sermos o país sul-americano com a maior costa voltada para o Atlântico Sul. Mas participação internacional exige continuidade, financiamento e presença nos espaços em que as decisões são tomadas.
A Antártica está longe, mas seus efeitos estão aqui
Depois de uma semana acompanhando tantas pesquisas, ficou ainda mais evidente que a Antártica não é um enorme bloco de gelo desconectado da nossa vida.
Ela influencia o oceano, o clima, as correntes marinhas, o nível do mar e os ecossistemas. Estudá-la não é um luxo científico nem uma curiosidade de quem gosta de lugares gelados. É uma necessidade.
O SCAR 2026 mostrou que temos conhecimento, tecnologia e uma comunidade internacional disposta a colaborar. Mas também deixou uma mensagem incômoda: as mudanças estão acontecendo rapidamente, enquanto as decisões políticas e os investimentos continuam avançando devagar.
A ciência já está fazendo perguntas importantes. Agora precisamos garantir condições para que ela encontre as respostas — e para que essas respostas sejam realmente utilizadas.


