Ártico e Antártica são dois lugares gelados, cheios de neve e localizados nos extremos do planeta. Então, devem ser praticamente iguais, certo?
Errado!
Essa confusão é muito comum. Quando falamos em regiões polares, muita gente imagina pinguins, ursos-polares, icebergs e um frio de congelar até o pensamento, tudo vivendo junto no mesmo lugar.
Mas o Ártico e a Antártica são muito diferentes. E não estou falando apenas daquela famosa explicação de que um tem urso-polar e o outro tem pinguim.
A diferença começa no que existe embaixo do gelo e passa pelo clima, pelos animais, pelas pessoas e até pela maneira como cada região é administrada.
Então coloque seu casaco mais quentinho, porque agora nós vamos viajar de um extremo ao outro do planeta.
Ártico e Antártica ficam onde?
O Ártico fica no norte do planeta, ao redor do Polo Norte. A Antártica fica no sul, ao redor do Polo Sul.
Até aí, tudo bem. Mas existe uma diferença que muda praticamente toda a história.
O Ártico é um oceano cercado por continentes. A Antártica é um continente cercado por um oceano.
No centro do Ártico está o Oceano Ártico. Durante boa parte do ano, uma grande área desse oceano fica coberta por gelo marinho. Ao redor dele estão partes de países como Canadá, Estados Unidos, Rússia, Noruega, Suécia, Finlândia, Islândia e Dinamarca, por meio da Groenlândia.
Já a Antártica é terra. É um continente coberto de gelo, uma camada bem grossa de gelo, e cercado pelo Oceano Austral.
Uma forma simples de lembrar é esta:
No Ártico, grande parte do gelo tem oceano embaixo. Na Antártica, grande parte do gelo tem continente embaixo.
Parece apenas um detalhe geográfico, mas não é. Essa diferença interfere na temperatura, nos animais, na ocupação humana e até nas consequências do derretimento do gelo.
Mas o gelo dos dois lugares não é igual?
Não.
Nós costumamos chamar tudo de gelo, mas existem diferentes tipos.
O gelo marinho é formado quando a água do oceano congela. Ele aumenta durante o inverno e diminui no verão. Isso acontece tanto no Ártico quanto ao redor da Antártica.
Já as geleiras e as grandes camadas de gelo que cobrem a terra são formadas pelo acúmulo de neve durante milhares de anos. A neve vai se acumulando, sendo pressionada e se transformando em gelo.
A Antártica guarda uma quantidade impressionante desse gelo continental. Em alguns locais, a camada passa de quatro quilômetros de espessura. É como empilhar muitos prédios, um em cima do outro, e imaginar que tudo aquilo é gelo.
No Ártico, também existe muito gelo sobre a terra, especialmente na Groenlândia. Mas o gelo que cobre o Polo Norte está principalmente flutuando sobre o Oceano Ártico.
E por que precisamos entender essa diferença?
Porque o gelo que já está flutuando no oceano, quando derrete, praticamente não aumenta diretamente o nível do mar. Você pode fazer uma experiência colocando pedras de gelo em um copo com água. Quando elas derretem, o copo não transborda.
Mas quando o gelo que está sobre a terra derrete, a água escorre para o oceano. É isso que acontece com as geleiras da Groenlândia e com o gelo da Antártica.
Qual é mais frio: o Ártico ou a Antártica?
A Antártica é mais fria.
Além de ser um continente, grande parte de sua superfície fica em altitudes elevadas. E nós sabemos que, quanto maior a altitude, menor tende a ser a temperatura.
A Antártica também é cercada pelo Oceano Austral, onde existe uma corrente oceânica que dá a volta no continente. Essa corrente ajuda a deixar a Antártica mais isolada das águas quentes que vêm de outras regiões.
Já o Ártico é um oceano quase completamente cercado por continentes. A água consegue armazenar e liberar calor, ajudando a deixar as temperaturas um pouco menos extremas.
Mas não se engane: os dois são muito frios.
A diferença é que a Antártica consegue levar essa história de frio a outro nível. Ela é o continente mais frio, mais seco e mais ventoso do planeta.
Nas minhas cinco expedições à Antártica, aprendi que não basta olhar a temperatura no termômetro. O vento muda tudo.
Uma temperatura que já parece baixa fica muito pior quando o vento começa a bater. O frio entra pelas pequenas aberturas da roupa e encontra qualquer pedacinho de pele que ficou descoberto. É como se ele soubesse exatamente onde procurar.
Urso-polar vive na Antártica?
Não!
Os ursos-polares vivem no Ártico. Eles usam o gelo marinho para se deslocar, descansar e, principalmente, caçar focas.
Os pinguins vivem naturalmente no Hemisfério Sul. Algumas espécies vivem na Antártica e nas ilhas próximas, enquanto outras podem ser encontradas em lugares bem mais quentes, como a América do Sul, a África, a Austrália e a Nova Zelândia.
Isso significa que nem todo pinguim é antártico.
Também significa que ursos-polares e pinguins não se encontram na natureza. Se você viu os dois juntos, provavelmente foi em um desenho, filme, propaganda ou montagem.
O urso-polar está no norte. Os pinguins estão no sul.
A natureza decidiu separar essa turma.
Os animais dos dois polos também são diferentes
O Ártico tem ursos-polares, raposas-do-ártico, renas, bois-almiscarados, morsas, focas, belugas, narvais e muitas aves migratórias.
A Antártica tem pinguins, focas, baleias e aves marinhas. Mas não pense que a biodiversidade antártica termina nos animais que aparecem nas fotos mais famosas.
Embaixo da água existe um mundo completamente diferente.
No fundo do Oceano Austral encontramos esponjas, estrelas-do-mar, crustáceos, corais, gorgônias e vários outros organismos adaptados às águas geladas.
Eu trabalho justamente com os animais que vivem no fundo do mar, os organismos bentônicos. E posso garantir: a Antártica não é um deserto sem vida. O ambiente marinho antártico é muito rico e ainda guarda muitas coisas que a ciência precisa descobrir.
Existe também um pequeno animal que é fundamental para praticamente todo esse sistema: o krill antártico.
O krill é um crustáceo pequeno, parecido com um camarãozinho, que serve de alimento para baleias, focas, peixes, aves e pinguins. Se a quantidade de krill diminui, muitos outros animais podem ser afetados.
Por isso, quando o gelo marinho muda, a preocupação não é apenas com o gelo. A mudança pode chegar à alimentação e à sobrevivência de várias espécies.
Existem pessoas morando no Ártico?
Sim. E essa é outra diferença muito importante.
O Ártico é habitado há milhares de anos. Diversos povos indígenas vivem nessa região e desenvolveram culturas e conhecimentos profundamente ligados ao gelo, ao oceano, à terra e aos animais.
No Ártico também existem cidades, escolas, estradas, portos e diferentes atividades econômicas. Não é uma região vazia esperando alguém chegar para explorá-la. Existem pessoas, histórias, territórios e modos de vida que precisam ser respeitados.
Na Antártica, a situação é diferente.
Não existem povos originários antárticos nem cidades como as nossas. Quem fica por lá são principalmente pesquisadores e profissionais que trabalham na manutenção e na logística das estações científicas.
A quantidade de pessoas aumenta durante o verão, quando as condições são um pouco menos difíceis e acontece a maior parte das pesquisas. No inverno, poucas equipes permanecem nas estações.
Eu já fiquei em estações do Brasil e da Coreia do Sul. E uma das coisas que a Antártica ensina rapidamente é que ninguém consegue trabalhar sozinho.
Cientistas, militares, cozinheiros, médicos, mecânicos, pilotos e muitos outros profissionais precisam atuar juntos. Em um ambiente tão extremo, cooperação não é apenas uma palavra bonita. É uma necessidade.
A Antártica pertence a algum país?
O Ártico inclui territórios que pertencem a diferentes países. Cada área segue as leis e as decisões políticas do país responsável por ela.
Na Antártica, funciona de outro jeito.
Existem reivindicações territoriais feitas por alguns países, mas o Tratado da Antártica estabeleceu regras para que o continente seja utilizado para fins pacíficos e para a realização de pesquisas científicas.
Isso não significa que a Antártica seja uma terra sem regras e que qualquer pessoa possa fazer o que quiser por lá.
Existe um conjunto de acordos que trata da proteção ambiental, da pesquisa científica, do turismo e de outras atividades realizadas no continente e no Oceano Austral.
A cooperação internacional permitiu que pesquisadores de vários países trabalhassem na região. Mas isso não significa que não existam interesses políticos e econômicos envolvidos.
Quanto mais o mundo olha para as rotas marítimas, a pesca, os recursos naturais e a posição estratégica das regiões polares, mais importante fica acompanhar as decisões tomadas sobre esses locais.
Os dois polos estão derretendo da mesma forma?
Não. E esse é um ponto muito importante.
Ártico e Antártica estão sendo afetados pelas mudanças climáticas, mas cada região responde de uma maneira.
O Ártico está aquecendo muito mais rapidamente do que a média do planeta. Uma das explicações está na perda do gelo marinho.
O gelo branco reflete parte da energia que recebe do Sol. Quando ele derrete, deixa o oceano escuro exposto. Esse oceano absorve mais calor, o que favorece ainda mais o aquecimento e o derretimento.
É como um ciclo que vai se alimentando.
Na Antártica, a situação é mais complexa porque o continente é gigantesco e cada região pode responder de uma maneira. A Península Antártica e partes da Antártica Ocidental, por exemplo, apresentam mudanças muito preocupantes.
O gelo marinho antártico também é influenciado pela temperatura da água, pelos ventos e pelas correntes oceânicas.
Por isso, não podemos olhar uma fotografia de um único ano e concluir que está tudo bem ou que tudo está perdido. Precisamos observar os dados durante muitos anos e entender o que está acontecendo em cada região.
Uma coisa, porém, já sabemos: os polos estão mudando e essas mudanças não ficam presas lá.
O que o Ártico e a Antártica têm a ver com o Brasil?
Essa é uma pergunta que escuto muito.
Afinal, se estamos tão longe, por que deveríamos nos preocupar?
Porque Ártico e Antártica ajudam a controlar o clima do planeta. O gelo reflete parte da energia solar, enquanto os oceanos distribuem calor, armazenam carbono e transportam nutrientes.
A Antártica e o Oceano Austral têm uma relação ainda mais direta com o Hemisfério Sul.
O Oceano Austral conecta os grandes oceanos do planeta e participa da circulação oceânica global. O que acontece ali pode influenciar o clima, o nível do mar e os ecossistemas marinhos em outras partes do mundo.
A América do Sul também é o continente mais próximo da Antártica. As massas de ar frio que chegam ao Brasil e fazem todo mundo tirar o casaco do armário estão relacionadas aos processos atmosféricos do sul do planeta.
É por isso que eu digo que a Antártica é o coração do planeta.
Ela pode parecer distante quando olhamos o mapa, mas está conectada com a nossa vida de várias maneiras.


